quarta-feira, 6 de novembro de 2013

"Um minuto!"


Ele estava sempre um minuto a minha frente. Um minuto adiantado. Um minuto apenas.
Eu poderia falar, mas ele já saberia o que eu diria e mais: já teria dado a devida resposta.
Por vezes eu chegava a cogitar que ele tinha o dom de ler meus pensamentos, mas eu estava enganado: a intuição era falha.
Na saída do colégio eu era sempre o último.
Na rua eu ficava para trás.
Na vida eu ficava a ver navios.
Tudo o que eu ganhava era usado: tudo já havia passado pelas suas mãos.
Tudo estava contaminado pelo seu adiantamento.
E eu, com todos os restos, sobras e miúdos - usados, gastos, manuseados ou polidos inúmeras vezes por mãos que buscavam a perfeição da conservação -, me contentava em estar seguro no passado. Ainda que o passado fosse, por vezes, um abrigo preservado e seguro, o mesmo poderia abarcar temerárias lembranças ou até mesmo graças que não mais o iluminavam, nem o faziam rir.
Ali, eu bebi do néctar doce das memórias frescas.

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