segunda-feira, 22 de março de 2010

Mais acima, a noroeste

Não sei pra onde vou e arrisco uma terra nova.
O céu é o mesmo.
O meu rosto corado, suado e sujo
aponta, na entrada da casa, para uma cozinha que fora construída sob a linha do Equador.

Naquele tempo a solidão ainda era coisa muito curiosa,
muito mais misteriosa,
muito mais insuportável e até mesmo,muito mais medíocre.
Haviam pulsos, haviam licores e o sentimento de.
Que sentimento?

Eu me enganara em todas as letras,
todas as tintas,
todos os lápis,
todos os desenhos nos papéis,
todas as cartas,
os rascunhos todos!

Enganara as borrachas,
as máquinas fotográficas,
as mãos, os ouvidos e
pensei enganar até os espíritos.

Voltar para um lugar que nunca estivera era algo impossível
uma ilusão
um quadrado de cimento na grama
e no final da tarde,
todas as cores dos teus olhos escorriam nos meus pés.

Coisas que ficavam para trás compunham com
a falta imensa que atravessava o meu caminho e deslizava suave e vigorosa
pelas estradas de chão de terra-batida.

Meus últimos dias, foram como um festim.
Dancei com a morte e abracei o ar.
Tal qual aquele pastel que comi contigo, enquanto tomávamos aquela cerveja, naquele bar barato, ao amanhecer.
Fora um tempo que - agora - voltava e dançava sobre mim
Eu não sabia para qual lado.

Quadrados de concreto na grama: criança
que curiosidade eu tinha
quando as coisas pareciam portas que não abriam para lugar nenhum.
Eu poderia rastejar para dentro de todos os canos canos,
rastejar até o outro lado da quadra onde eu contava, mais ou menos, 17 pássaros tesourinhas lado a lado sobre um fio de luz.

Aqueles pedaços de concreto nem eram, afinal, tão importantes.
Importava era aquela noite que eu estive deitado na grama da praça.
Aquela praça onde meus pés ensaiaram sangrar e depois andaram pelo amanhecer até onde eu poderia chegar naquele dia
e mesmo depois disso, eu achei que esse era o lugar que sempre fora.

Ia e atravessava a noite fazendo um barulho que eu nunca esquecerei.
Rasgava quadros de cimento e costurava nós no ar.
Mas nunca soube costurar os pontos vivos e,
e assim,
perdeu-os.

Escrito em 22/03/2010 - Ji-paraná, Rondônia
Editado em 02/12/2015 - Porto Alegre, Rio Grande do Sul


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